aperto a mão gorda de um que está de volta
ouço do outro sobre o filho quase do tamanho do meu
o carioca ganha minha simpatia no ato da sua rebeldia
dirigem bem
não me cobram nada
meu coração ainda não sabe bem
tem sede de mudar o mundo
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
domingo, 18 de maio de 2014
A mulher na sombra do poste
Primeira trama
Isabel pousou a agulha e a linha. Saiu pela porta fina e
pôs-se na rua a esperar. Guardou antes um pedaço pequeno do trançado feito quando o sol nascia, a linha cobria apenas seus dedos do pé.
Aguardou ali, quase sumindo na sombra escura do poste.
O primeiro homem parou, desceu e sumiu com ela pela porta
pequena do poste, encolhendo a barriga.
-
As tardes passam quentes esses dias, não é mesmo
Isabel?
-
Receio que sim. Deseja um pouco de gelo para
acalmar o calor?
-
Mas promete me aquecer depois.
Muitos minutos e Isabel voltou a por-se na sombra, que lhe
cabia inteira.
Na hora comum, o próximo veio e com ela adentrou a
casa e, mais um pouco, o corpo.
-
As noites caem cedo por aqui, não é mesmo
Isabel?
-
Receio que sim. Deseja que ligue o abajur para parecer mais dia?
- Me garante acordar antes da noite.
Assim que a noite apresentou-se Isabel acordou o homem que
saiu rua escura.
Ela sentou-se na cadeira, com agulha e linha e seguiu
trançando até que as linhas chegassem até o tornozelo.
Deitou-se até dormir, os dois pés agora tinham meias.
Segunda trama
É que Isabel se mudara há pouco tempo. Naquela rua o
movimento era bom e o barulho era pouco. Ficava de lado para a rua até as uma.
Depois de lado para o poste. Garantia assim que os dias passassem menos duros e
algumas vezes sentava-se em um banquinho.
Essa casa nova era maior, localizada dentro do poste, na
rua central, frente ao mar.
Lá o movimento era bom e o barulho era pouco.
segunda-feira, 10 de março de 2014
ode aos 28
7+7+7+7 =
vinte e oito
me anunciaram um coração tranquilo
e a memória ainda agitada
do último ciclo de sete
olha para o agora e se entrega sem pedido
vinte oito
vou ao lado do companheiro
carregando nosso menino
e nossos sonhos
todos eles
como preciosos que são
vinte e oito
os caminhos são nossos pés
e saberemos andar
por todo terreno
por todo afeto
por toda aventura
vinte e oito
e me surge no peito
uma vontade que não me é estranha
mas que ficou adormecida
para dar conta da vida
a revolução silenciosa se inicia.
vinte e oito
me anunciaram um coração tranquilo
e a memória ainda agitada
do último ciclo de sete
olha para o agora e se entrega sem pedido
vinte oito
vou ao lado do companheiro
carregando nosso menino
e nossos sonhos
todos eles
como preciosos que são
vinte e oito
os caminhos são nossos pés
e saberemos andar
por todo terreno
por todo afeto
por toda aventura
vinte e oito
e me surge no peito
uma vontade que não me é estranha
mas que ficou adormecida
para dar conta da vida
a revolução silenciosa se inicia.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
vê-las passar
fitar
em um tipo de sentimento
que é anuncio
que é partida
ao estar longe
dizer-se longe
permanecer longe
ao lado
abismo onírico
abismo do cansaço
abismo de conhecer
a imaginação agride
tantas belas passeiam
quase grita para que a deixe
o abandono do amor trás
a beleza do mundo escancarada
de saudade não se morre
invisível se torna de tanto amor tranquilo
fitar
em um tipo de sentimento
que é anuncio
que é partida
ao estar longe
dizer-se longe
permanecer longe
ao lado
abismo onírico
abismo do cansaço
abismo de conhecer
a imaginação agride
tantas belas passeiam
quase grita para que a deixe
o abandono do amor trás
a beleza do mundo escancarada
de saudade não se morre
invisível se torna de tanto amor tranquilo
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Versão 1
"No abaeté tem uma
lagoa escura."
Dorival corria nas areias
alvas que faziam moldura para lagoa de Itapoã. Descia rolando nas terras
brancas e caia na agua gelada, alma da chuva e dos rios , se arrepiando todo.
Olhava as lavadeiras, moças
bonitas e coloridas, roupas limpas, braços fortes... se apaixonou.
Eis que um dia, correu a
notícia que Maricotinha, sua pequena, tinha sido levada pela lagoa, engolida
pelo redemoinho e puxada para bem fundo das águas escuras.
Desesperado Dorival correu
até o terreiro e ajoelhou-se defronte Mãe Menininha implorando que lhe ajudasse
a recuperar Maricotinha.
- Oxum. Peça para Oxum
devolver sua amada.
No sábado, dia de Oxum, de
peito liso e calça branca,capoeira, gritou alto, ressonando por toda Salvador:
Erieiê ô ! Erieiê ô ! Erieiê ô !
Se jogou nas águas pretas e
afundou, afundou. A Lua namorava a lagoa, deu sorte. Já no fundo, perto da
areia que não se toca, nem com os pés, viu flutuando Maricotinha.
Com as flores amarelas, os
espelhos e a champagne clamou para Oxum que deixasse levar de volta sua amada.
Oxum, porém, pediu algo a
mais em troca.
Nove meses depois Dorival
se jogou nas águas com seu primogénito no colo.
- Eis ele, Oxum. Me
devolveu a amada e prometera que cuidaria do parto e o fez. É um menino bem
grande e é seu.
Oxum pegou o infante no
colo, sorriu e decretou.
- És homem honrado. A
partir de hoje a lagoa se chama Abaeté. Toma teu filho de volta. Em troca quero
que fundes uma festa, que me tragam oferendas e que leve a Bahia na voz, que será
mais forte que trovão.
Dorival emocionado voltou e
cumpriu todas as promessas.
Rascunho para a versão 2.
Para lembrar:
- Dorival tem um filho com a lagoa
- O filho cresce, cresce
- Toda vez que ele fala a terra treme
- Cresce tanto que não cabe mais na lagoa, foge
- Oxum sai para procura-lo
- O encontra chorando defronte ao mar
- Yemanjá comovida com a dor do rapaz o transforma em uma pedra
- Oxum, para não morrer de saudades do filho implora que Yemanjá ao menos o deixe cantar
- Yemanjá concede o pedido
- A pedra ronca em Itapoã
sábado, 23 de novembro de 2013
o meu amor
Leva o dorso quase sempre nu Tem o peito aberto É intenso no que sente Ama e guarda rancor Diz que guarda rancor Mas ama principalmente Faz graça, inventa nomes As vezes quer se mudar para longe Quer furar poços Admira o amigo da floresta Tem teorias sobre si mesmo Presta atenção nos sonhos Diz que nao sabe Mas as vezes sabe que é bonito Sabe do seu poder de seduzir Sabe como pegar, acariciar e cheirar Sabe o lado que lhe favorece na foto e no palco Se arruma de um jeito seu Chama atenção onde passa Corta as roupas e quer achar um corte de cabelo Usa pulseiras todos os dias Usa colares Alguns acham que é de santo É da Bahia de todos os santos Parece saído de esparta É meio grego, meio arabe É grande e tem fala segura Muitos o vêem como pai As vezes chora quando pensa no pai Briga com a mãe em um amor que é enorme e abraça a mãe muitas vezes As vezes passa uns dias triste Toca violão e canta Cada vez mais alto Cada vez mais bonito Carrega o bebê e o faz sorrir Sente dor no calcanhar Mas logo passa Sente saudade da praia e da vida perto do mar Mas nao sabe bem onde quer morar agora É essencialmente belo e justo Mergulha, caça o peixe, trata e cozinha Leva o dorso quase sempre nu.
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