segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A espera
seria um poema
para ver-te crescer
Mas não sinto nada agora
além do seu corpo que se anuncia no meu e amor
amor que é coisa de bicho
A espera
afora o passar do tempo
deveria ser uma festa
mas não sinto nada agora
além do seu corpo que se estica no meu e amor
amor que é coisa de bicho.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

aprendi quando criança a respeitar os velhos e o mar.

o tamanho do mundo
é o passar de barcos a vela
para se saber a grandeza do mundo
há de se beber o ritmo das águas
há de se soltar ao sabor do vento
pergunta calmaria a uma tempestade
pergunta tempestade a calmaria



a água na terra
lama
a água na terra
lava
o bicho da terra
lavra
o bicho da terra
migra
apoiar a cabeça na grama
tentar ouvir o que diz o meu chão
essa vontade incompreensível
de partir
o coração.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

do espaço de cria
de criar-se
calma que se instala serena
e um pedaço de chama
ainda quer queimar
levar no colo
levar na barriga
levar no coração
não impede a vida
esse peso
esse perder o prumo
arrepender-se do grito
esse grito
já não como fico
mas vamos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

aperto a mão gorda de um que está de volta
ouço do outro sobre o filho quase do tamanho do meu
o carioca ganha minha simpatia no ato da sua rebeldia
dirigem bem
não me cobram nada
meu coração ainda não sabe bem
tem sede de mudar o mundo

domingo, 18 de maio de 2014


A mulher na sombra do poste


Primeira trama

Isabel pousou a agulha e a linha. Saiu pela porta fina e pôs-se na rua a esperar. Guardou antes um pedaço pequeno do trançado feito quando o sol nascia, a linha cobria apenas seus dedos do pé.
Aguardou ali, quase sumindo na sombra escura do poste.
O primeiro homem parou, desceu e sumiu com ela pela porta pequena do poste, encolhendo a barriga.
-       As tardes passam quentes esses dias, não é mesmo Isabel?
-       Receio que sim. Deseja um pouco de gelo para acalmar o calor?
-       Mas promete me aquecer depois.
Muitos minutos e Isabel voltou a por-se na sombra, que lhe cabia inteira.
Na hora comum, o próximo veio e com ela adentrou a casa e, mais um pouco, o corpo.
-       As noites caem cedo por aqui, não é mesmo Isabel?
-       Receio que sim. Deseja que ligue o abajur para parecer mais dia?
-       Me garante acordar antes da noite.
Assim que a noite apresentou-se Isabel acordou o homem que saiu rua escura.
Ela sentou-se na cadeira, com agulha e linha e seguiu trançando até que as linhas chegassem até o tornozelo.
Deitou-se até dormir, os dois pés agora tinham meias.


Segunda trama

É que Isabel se mudara há pouco tempo. Naquela rua o movimento era bom e o barulho era pouco. Ficava de lado para a rua até as uma. Depois de lado para o poste. Garantia assim que os dias passassem menos duros e algumas vezes sentava-se em um banquinho.
Essa casa nova era maior, localizada dentro do poste, na rua central, frente ao mar.
Lá o movimento era bom e o barulho era pouco.

segunda-feira, 10 de março de 2014

morri de amor por itapuã
quando te vi
surgir daquele mar
falar daquele mar
entrar naquele mar
se benzer como um menino
e mergulhar no canto das pedras
na lambida do sol


ode aos 28

7+7+7+7 =

vinte e oito
me anunciaram um coração tranquilo
e a memória ainda agitada
do último ciclo de sete
olha para o agora e se entrega sem pedido
vinte oito
vou ao lado do companheiro
carregando nosso menino
e nossos sonhos
todos eles
como preciosos que são
vinte e oito
os caminhos são nossos pés
e saberemos andar
por todo terreno
por todo afeto
por toda aventura
vinte e oito
e me surge no peito
uma vontade que não me é estranha
mas que ficou adormecida
para dar conta da vida
a revolução silenciosa se inicia.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

vê-las passar
fitar
em um tipo de sentimento
que é anuncio
que é partida

ao estar longe
dizer-se longe
permanecer longe
ao lado

abismo onírico
abismo do cansaço
abismo de conhecer

a imaginação agride
tantas belas passeiam
quase grita para que a deixe
o abandono do amor trás
a beleza do mundo escancarada
de saudade não se morre
invisível se torna de tanto amor tranquilo


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Versão 1


"No abaeté tem uma lagoa escura."


Dorival corria nas areias alvas que faziam moldura para lagoa de Itapoã. Descia rolando nas terras brancas e caia na agua gelada, alma da chuva e dos rios , se arrepiando todo.
Olhava as lavadeiras, moças bonitas e coloridas, roupas limpas, braços fortes... se apaixonou.
Eis que um dia, correu a notícia que Maricotinha, sua pequena, tinha sido levada pela lagoa, engolida pelo redemoinho e puxada para bem fundo das águas escuras.
Desesperado Dorival correu até o terreiro e ajoelhou-se defronte Mãe Menininha implorando que lhe ajudasse a recuperar Maricotinha.
- Oxum. Peça para Oxum devolver sua amada.
No sábado, dia de Oxum, de peito liso e calça branca,capoeira, gritou alto, ressonando por toda Salvador: Erieiê ô ! Erieiê ô ! Erieiê ô !
Se jogou nas águas pretas e afundou, afundou. A Lua namorava a lagoa, deu sorte. Já no fundo, perto da areia que não se toca, nem com os pés, viu flutuando Maricotinha.
Com as flores amarelas, os espelhos e a champagne clamou para Oxum que deixasse levar de volta sua amada.
Oxum, porém, pediu algo a mais em troca.
Nove meses depois Dorival se jogou nas águas com seu primogénito no colo.
- Eis ele, Oxum. Me devolveu a amada e prometera que cuidaria do parto e o fez. É um menino bem grande e é seu.
Oxum pegou o infante no colo, sorriu e decretou.
- És homem honrado. A partir de hoje a lagoa se chama Abaeté. Toma teu filho de volta. Em troca quero que fundes uma festa, que me tragam oferendas e que leve a Bahia na voz, que será mais forte que trovão.
Dorival emocionado voltou e cumpriu todas as promessas.




Rascunho para a versão 2.

Para lembrar:

- Dorival tem um filho com a lagoa
- O filho cresce, cresce
- Toda vez que ele fala a terra treme
- Cresce tanto que não cabe mais na lagoa, foge
- Oxum sai para procura-lo
- O encontra chorando defronte ao mar
- Yemanjá comovida com a dor do rapaz o transforma em uma pedra
- Oxum, para não morrer de saudades do filho implora que Yemanjá ao menos o deixe cantar
- Yemanjá concede o pedido
- A pedra ronca em Itapoã