segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

De que cor é esse sentimento?
Se chamarem de dor, ela não responde.
Bem tarde da noite, tranquila
muito branca, muito pálida
com uma maça muito vermelha em cima da cabeça
dançou equilibrando a fruta
Sorrindo um sorriso que de tão verdadeiro nem encostava nos lábios
Cantou uma música, com os quadris e com as mãos
sutil manteve a maça como uma lata d'agua na cabeça
Fez as contas e viu que só faltava ela
deitou de dia no sofá amarelo
Os olhos muito azuis, quase perdiam a cor naquele dia
E ela foi, pouco a pouco
o sangue ficando tão branco
que sumiu.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

eu quero te ver bonito
como no tempo de chuva
que brota a cor no verde
eu quero te ver bonito
como o amanhecer de uma gota
como o correr de um gato
como a lâmpada pequena, luz no canto da sala
que se acende e pisca - mas não passa a noite em claro
eu quero te ver bonito
como a pimenta que nasce
como a casa que o cheiro bom invade
como o caminho que se abre

domingo, 20 de novembro de 2011

oração

deus
que não existe
e que se existe
é maior que existir
o tempo que pergunta
tanta pergunta
é um tempo sem resposta

se olha, bem rapidinho
o passarinho
já fez um ninho
já viveu e já voou

o tempo que sobra
da nossa vida
para a mosca da fruta
é uma eternidade sem fim

ficar perto do abraço
ficar dentro do abraço
ficar sozinho um tempo, porque é bom
o mar, cheio de peixe,
também sabe a solidão do pescador.

Libras

Dos meus dedos
não sei muito
além de que terminam em unhas
cutucam coisas
entram em buracos
seguram anéis
Dos sinais
que alguns
contam
mais que histórias
toda uma língua
sem som, com palavra-mão

Palavra

Que língua teu corpo fala?
qual atitude da sua palavra?
qual caminho que te desbrava?
qual do passo é virtual, ancestral, caminho?
Que língua existe além do dia?
além da noite?
além do triste?
e do feliz?
e do dinheiro e
dos seus pés?
Para que correr mundo?
sem correr para dentro?
dançar uma nova língua
lamber a língua tua
inventar
mais do que a palavra
o silêncio que te diz.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

o homem
parado frente ao mar
não anseia o mergulho
e se anseia
não se molha
o homem fincado na areia
sal nos poros, grãos pequenos
o homem
parado em frente ao mar
sente o vento
sente muito
não ser um coqueiro.
como um coqueiro
que não espera o vento
que não anseia o mergulho
que não admira o mar
que apenas dá coco e
que o coco cai no chão
e as raízes engolem sal e sal e sal
como um coqueiro verde,
em uma tarde de sonolencia
que não sente sono em seus cem anos de sono
acordado e dormindo.
o coqueiro medita.

sábado, 6 de agosto de 2011

Mil flores
um sol
bem alto
e as mil flores
seguem o sol
Crescem com gosto
imaginam poder alcançar
um pedaço de sol
um pedaço de nuvem
derretendo na boca
mil flores

quinta-feira, 28 de julho de 2011

perde-se tempo, perdendo-se tempo
perde-se tempo, procurando-se tempo
tempo bom é tempo em que se perde-se
seus olhos de água
abertos no mar
o sal nos seus olhos
de tanto chorar

seus olhos de chuva
imensa manhã
dormir no aconchego
depois, acordar
Não existe mais oito
não existe mais dez
existe um dia mais longo
e uma noite voraz a engolir meus sonhos
no japão o japones vive o contrário dos meus ponteiros
sorri de olho fechado
o japones
o japones
não existe mais maio ou outubro que não acabe
não existem mais flores naquele vaso
mas nascem uns ramos verdes da terra
não existe mais nada
não existe nada japones
e a vida se renova.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

onde voce tem colocado sua libido?

o desejo percorre que caminho
sai pela boca, ou entra pelas pernas
o poema
a poesia
o poema
a poesia
o poema
a poesia

sexta-feira, 8 de julho de 2011

como se algum tipo de anjo
passando entre seus dedos
lhe conferisse um segredo
ou uma força sem igual

sabia, era frágil tudo isso de amor
saía e a olhava com um olhar quase morno
sumindo na porta

e de preguiça de vê-la
talvez não mais voltasse
talvez se demorasse
na rua de sexta feira

sabia quase nada dessa coisa de amor
voltada sem pensar um olhar quase morto
deixa de fora

talvez tivesse nua
em baixo de tantas cobertas
esse brincar de amor puro
quase um pecado deixa-la

mas homem, macho - não nega.

e se algum tipo de anjo
passeando entre seus dedos
lhe confessasse um segredo
e perdesse a aureola

mas homem, macho - não nega.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

nem de afundar na cama
nem de falar de amor
que nem fazer cafuné
sem unha
é quase sem sossego
esse meu respirar de
amanhã
hoje.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

é que é preciso de urgência para viver
algo que pareça maior do que as horas do dia
ver o rapaz definhar
e de ficar calada nao serve estar viva
pela falta de diagnóstico
pela pele que é osso
ele, cara de tão bom
de grande, miúdo fica
nada em mim é mais fino que seus pulsos
e de ficar parada, não serve estar viva
movo, se não morro.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

quando me estico
ouço o espaço que surge
dentro de mim
o estalo no corpo, crescendo
o espaço para cima
despertando
o ar passando rente
estalo o pescoço
sinto a nuca
os cabelos
o rosto
as mãos
quando me estico
quase planta
em busca do sol
certeza de que sempre
tem como ir além
mesmo no corpo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

a luz se entrega a gota
abraça
ar. cor. íris.
ri
reluz
pequena nas mãos
diamantes de água
não se pega na cor
no pote de ouro
mas se molha na chuva
e se colore por dentro

quinta-feira, 10 de março de 2011

o vento grita
a planta feita para o vento
nem balança
meus cabelos presos no topo
quase não sentem
mas as bonecas penduradas caem
e à intriga do apito
levanto e fecho as janelas
meus cabelos em névoa
pedem, solto
abro a porta da varanda
perto das plantas que sentem o vento
eu sinto
pimenteira
quer água
eu quero tempo
quero vento
o vento no rosto
só.

terça-feira, 1 de março de 2011

Calma
à estrelar
no céu da boca
calma
o que você não disse
me diz
o que você me disse
não diz
tudo, tudo, tudo
em um sorriso
e mar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

portocamba

saudade bruta
de agosto
quando sentava na mesa com ele
e cortava cerejas na ponta da faca
ele passava o café
que logo apitava
dava um gole
eu achava que podia descobrir o que ele queria
ele sempre me surpreendia
ele bebia iogurte
eu comia, comia
a gente dividia a casa
e tinha cuidado com as horas do dia
colocar a roupa no varal quando seca, ele ensinava
e comia sopa sem gosto
feita de caixinha e carinho
em agosto
as vezes, muitas vezes, ele ria
do meu amor desastrado.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

menino lobo
que queria ser leve
qual o peso de uma lembrança alegre
me diz
que não me pesa essa saudade
apesar de todo pesar que me faz sentir

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

lua

parte de ir
é partir
e porque fica
ao menos um pouco
parte de ir
é ficar

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Na manhã que nasce calma
na sua pálpebra
planto um sonho
enquanto a música invade o quarto
junto a luz do dia
Na manhã que vem tão calma
na sua barba
planto um beijo
e desço o cobertor