sábado, 8 de junho de 2013


por te inundar de coisas doces
esse suco que desce em seu corpo
que vem da minha boca

por te apresentar esses sabores de vida
essa quase calma que surge agora em mim
que eu sequer entendo
porque antes a angustia era tão vasta
e me sobrava tempo
hoje sou só esse gosto
que quer encontrar sua boca
ouvir de longe
esse sussurro
de certeza da beleza
arrepia os pelos
uma canção antiga
e pulsante

o umbigo
no centro do corpo
aos poucos some
e o centro de tudo
agora parece novo

um lugar pequeno
para se ir a a pé
e levar coisas leves
e belas

o mormaço vermelho
vem lágrimas
é, eu sei

a vida
um amor assim.

em si, para fora.

terça-feira, 21 de maio de 2013

China mama

Minha mãe na China
de olhos puxados
comendo besouros fritos

Na grande muralha,
minha mãe na China, vermelha
Nos grandes mercados
minha mãe na China, verde

Minha mãe e o espaço que me abrigou, alimentou, expulsou

Além da vida, o que mais é culpa minha?
Além da vida, o que mais é culpa dela?

Minha mãe que me devasta
Minha mãe a quem eu envelheço

Minha mãe a quem devasto
Minha mãe como eu envelheço.
Se dizer artista
Forma virulenta
Devasta
pessoas de todos os lugares.
Pinta as falhas que deixa o verso
Compõe o toque que conclui a falha
Se alimenta do indizível
se a arte não se diz - forma virulenta
se dizer artista
expressar-se
em toda forma de ser arte
nunca, nunca cabe.

A muralha das vaginas

Querer ser todas
Querer se nenhuma
Querer ser a sua
Querer ser só minha
Querer atrair um olhar primeiro do outro
Querer atrair um olhar segundo do mesmo
Seduzir com o corpo e a boca
Solidão do único
Solidão do nada
do gozo interno
sem limites
Reiterado, em série
Mulher.

terça-feira, 7 de maio de 2013

o menino com a cabeça estourada
caindo do banco
o boné no chão
tiro da arma do próprio comparsa
o homem relembrando dos fatos
faltando-lhe o ar
dias depois de cabelos penteados
descansado, moço de luta
mas não acostuma-se
enfrenta a vida e só
porque precisamos
e porque os dias passam
e seguimos

o que sinto hoje
acho que é mesmo
o enjôo da violência...



as notícias aparecem frente aos olhos
um senhor de 74 anos
pedalando sua bicicleta
morre em choque com um ônibus
um senhor de não sei quantos anos
dirige o ônibus e também morre um pouco
eu, com 27, morro um pouco também ao ler a notícia
culpa de todos nós
vivermos em um canto de pouca rua para ser andada
de pouco espaço
de muito asfalto e buracos
de poucos momentos para entregar-se ao vento
e ir, em direção a qualquer coisa, sem pressa
toda notícia de ônibus e bicicleta
me salta aos olhos quando passam a tela
a rede tão vasta
mas o ônibus que, público, não lhe obedece as vontades
muito menos sabe onde é a porta da sua casa
a magrela tão livre
mas capaz de chocar-se como um gafanhoto
contra um carro, um muro, ou até simplesmente o chão.
pouca morte é vida?
pouca morte...
cruzando os dedos
fazendo cartazes
falando com gente
rezando para todos os deuses
pedindo ao acaso
treinando as pessoas
falando da bicicleta...
de andar
da cidade
pedindo que nenhum senhor de 74 anos se choque
com os ônibus tão grandes
dirigidos por senhores de tantas idades e histórias
tantos deles que confiam em mim
e eu neles
todos os dias.