domingo, 15 de janeiro de 2012

o seu avô

as vezes o seu avô sorri
ele que é tão sério
quase sisudo...
as vezes ele sorri
e vendo ele sorrir ao nosso lado
eu penso que os velhinhos merecem esquecer da vida toda
por alguns instantes
e esquecer do corpo
do remédio, de acordar cedo, da lonjura do tempo que passa
e nos novos sentir-se novos
como foram
um dia serei uma velhinha
e do meu lado espero ver-te como vovô
te verei tão jovem, meu amor
vendo-nos passar em tempo
ficar contente
quanto o dia que seu avô sorriu
ao lado nosso.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

De que cor é esse sentimento?
Se chamarem de dor, ela não responde.
Bem tarde da noite, tranquila
muito branca, muito pálida
com uma maça muito vermelha em cima da cabeça
dançou equilibrando a fruta
Sorrindo um sorriso que de tão verdadeiro nem encostava nos lábios
Cantou uma música, com os quadris e com as mãos
sutil manteve a maça como uma lata d'agua na cabeça
Fez as contas e viu que só faltava ela
deitou de dia no sofá amarelo
Os olhos muito azuis, quase perdiam a cor naquele dia
E ela foi, pouco a pouco
o sangue ficando tão branco
que sumiu.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

eu quero te ver bonito
como no tempo de chuva
que brota a cor no verde
eu quero te ver bonito
como o amanhecer de uma gota
como o correr de um gato
como a lâmpada pequena, luz no canto da sala
que se acende e pisca - mas não passa a noite em claro
eu quero te ver bonito
como a pimenta que nasce
como a casa que o cheiro bom invade
como o caminho que se abre

domingo, 20 de novembro de 2011

oração

deus
que não existe
e que se existe
é maior que existir
o tempo que pergunta
tanta pergunta
é um tempo sem resposta

se olha, bem rapidinho
o passarinho
já fez um ninho
já viveu e já voou

o tempo que sobra
da nossa vida
para a mosca da fruta
é uma eternidade sem fim

ficar perto do abraço
ficar dentro do abraço
ficar sozinho um tempo, porque é bom
o mar, cheio de peixe,
também sabe a solidão do pescador.

Libras

Dos meus dedos
não sei muito
além de que terminam em unhas
cutucam coisas
entram em buracos
seguram anéis
Dos sinais
que alguns
contam
mais que histórias
toda uma língua
sem som, com palavra-mão

Palavra

Que língua teu corpo fala?
qual atitude da sua palavra?
qual caminho que te desbrava?
qual do passo é virtual, ancestral, caminho?
Que língua existe além do dia?
além da noite?
além do triste?
e do feliz?
e do dinheiro e
dos seus pés?
Para que correr mundo?
sem correr para dentro?
dançar uma nova língua
lamber a língua tua
inventar
mais do que a palavra
o silêncio que te diz.