terça-feira, 9 de novembro de 2010

novembro, nove


prezado senhora,

venho através desta comunicar-lhe
que no próximo segundo
você vai ficar sozinha
completamente sozinha e
submersa
completamente
silencio
ha não ser pelas braçadas
e pelas palavras que se diz calada.

prezada senhora,

te comunico
que
sendo, efetivamente,
três por raia
é bom você pegar fôlego.
é como se no próximo segundo eu fosse acordar
e a bamor grita do lado de fora
e o carro buzina
e a noite vai passando
eu deslizando minha vontade de cair na água
e o carro buzinando gol
é como se no próximo segundo eu fosse acordar
mas ainda estaria dormindo então
é como cair no escuro
é meu coração num compasso errado
desacreditando sem motivo algum
do bater que escuta tão nítido
como o gol do bahia
mas tenho certeza que acordo no próximo segundo
e o fim do sonho me parece
um dia sem luz.
tira a maquiagem dormida
de ontem
e o rosto envelhece assim
pouco importa
para quem dorme no sofá
e nem percebe que dormia
para todas nós que estamos
ganhando anos em dias
(isso passa)
não sabe mais como chegou na cama
mas as cinco tira a maquiagem
escova os dentes, bebe água, toma remédio
molha as plantas de novo
e de novo
sem medo de afoga-las
mas não é como recompensa pelo dia anterior sem agua
é só por cuidado
sente o sol nascer mas de olhos fechados
uma mariposa no alto do armário
assustadora e inofensiva
lembra da arrevoada de mariposas
trazida em novembros antigos
Pede educadamente que a mariposa
deixa de ser mancha no seu ármario branco
mas ela não obedece
e ela mata a mariposa
como se sua vida fosse mais importante.
- eu não sei o que é. mas sei que está doendo.
- vem aqui.
ela então soprou com um vento doce o menino e
ele foi voando por entre a copa das árvores
- eu não sei te dizer menino porque te sopro para longe
eu nem sei dizer se passa mesmo
mas acho que sim.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O mistério daquela casa
é nunca ter certeza
se quer mesmo
pagar o preço
girar a chave
abrir a porta.
Que novo mundo é esse?
Que velho mundo é esse?
Qual o endereço
do seu nome
Emília?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Se atravessar a nado
ou, já estando crescido
com a água na cintura
encontrará intacto
pinaunas e peixinhos
de muitos anos
repetindo-se
Não são os mesmos
mas parecem iguais
Mas se o sol querer se pôr
perto das seis
e voce voltar sem ver
porque não quis molhar a roupa
e sentiu frio
e pressentiu o escuro
Ainda continuarão intactos
a onda e a pedra
E, enfim
se com a agua na canela
voltar em direção ao sol
em direção ao rio
atravessado há vinte anos, suponho
quando aquele mundo era segredo
dividido entre nós como nosso
aquele mundo que era o começo mar
as braçadas mais corajosas
fica jurado
um dia voltaremos.
não mais os mesmos, sequer parecidos...
muito menos intactos...
mas bem vivos.
O que guarda guardador
em uma noite sem guarda
em uma viela escura
Por que guarda sem graça
essa rua
Como se guardasse o mundo
de você
A rua é pública
mas sua noite é sua, eu sei
E isso tudo é um pouco patético
Mas o que guarda guardador
além de uma pedra de crack, talvez
um bafo nojento
um olho de raiva
tudo mentira, eu sei
Talvez não guarde nada
talvez nem sinta fome
Mas se essa rua
se essa rua fosse minha...
eu mandava
eu mandava
ela te guardar.
Se essa rua fosse minha
e ela tivesse dentes
boca quente
sem saída
te enchia de porrada
guardador...
ou nada, nada disso
nem te via
ou te via
quem vigia, guardador?
O que guarda?